Após tanto tempo desafiando a loucura dos homens, atirando pedras em gigantes adormecidos, rompendo barreiras, cruzando fronteiras, me vejo em um ponto completamente diferente de tudo o que sonhei ou almejei alcançar.Por todas as vezes em que desafiei o meu medo de tentar e alcei vôos por lugares desconhecidos, despencando em meio a campos de batalhas que na maioria das vezes nem eram minhas, e por todas as vezes em que desafiei o segredo dos sonhos, cruzando meus limites, por tudo isso e mais um pouco é que não consigo entender ou definir esse ponto em que cheguei, onde a espada já se rachou, o escudo já se quebrou, e todo o restante da armadura ficou espalhado pelo caminho, onde agora não tenho nada além de um pequeno saquinho com três sementes de esperança.Ah! Esperança... Sua voz soa sempre tão baixo que se torna praticamente impossível ouví-la em meio aos meus gritos de desespero. Contudo é ela quem me tenta fazer lembrar dos fragmentos daquele 7 de maio, ou de todas as vezes em que precisei voltar grandes distâncias de um caminho errado percorrido, dos gigantes que derrubei, dos amores que vivi, dos mundos de sonhos e devaneios que tornei reais simplesmente por acreditar.Foi por amar demais que cheguei até aqui, por ter que suportar, não sem grande dor, um encontro real com a própria Verdade; e por tentar acreditar em minhas próprias palavras deixei de acreditar em mim, e deitei aqui, acreditando que tudo havia terminado (e pode até ser que tenha sido!).A Esperança continua, no entanto, cantando; e de tudo o que ela me faz lembrar em cada estrofe de sua canção, o refrão é o que me faz tremer os ossos: "Não esquece quem tu és... Não esquece quem tu és...". Mas como lembrar de alguém que há tanto já deixou de existir? Como ouvir sua voz com tantas outras vozes gritando o contrário? Pois todas as vezes que tento me levantar e gritar meu nome sou açoitado e ferido pelos mesmos gigantes que outrora derrubei.Tento mudar, tento voltar... Mas sei que não tenho mais forças pra isso. Criei em mim valores e princípios tão grandes que no vale em que me encontro não tenho mais como vivê-los ou alcançá-los. E este é meu grande dilema: Sei que tenho grandes princípios e valores admiráveis, mas não mais encontro forças pra aplicá-los. Perdi a fé em mim. E tento recomeçar, e tento entender, respiro fundo e tento me encontrar, mas tudo o que posso fazer é continuar resistindo e me agarrar aos poucos sonhos que ainda me restam...Ainda sinto uma brisa suave. Ainda ouço o sussurrar da Esperança e o refrão de sua canção. Ainda lembro bem o sabor da vitória e o cheiro de orvalho da primeira manhã após uma grande batalha. E ainda posso ver... De alguma forma, em meio a tanta escuridão vejo os olhos do Grande Leão sobre mim; e é esse olhar que tem me aquecido. Sei também que é dele que vem essa doce canção..."Não esquece quem tu és..."Talvez eu seja então um soldado ainda pronto para a luta... luta pela liberdade, enfim. É o que sou; é quem eu sou; e é quem continuarei sendo pelo tempo que me for dado, pelo hoje e pelo eterno.
Gesiel Souza

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