quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Revigore

   


   Éramos poucos soldados aquela noite. Estávamos cansados e com medo, embora ninguém o demonstrasse. A poucos metros do campo e batalha nos reunimos no início da noite a fim de buscarmos um novo ânimo, força e coragem. Não estávamos desanimados, nem fracos, tampouco desmotivados, mas entendíamos que precisávamos daquele momento, não somente pra nos mesmos, mas para o próprio Reino em si. O destino da vitória havia sido colocado em nossas mãos, não poeríamos vacilar.
   Era uma noite fria, mas a medida que nos aproximávamos do lugar exato em que queríamos estar um calor nos envolvia de maneira suave e revigorante. Fluía em nós. Queimava em nós. Em poucos minutos já não conseguíamos pensar em nós mesmos, ou nas lanças dos inimigos dos quais nos escondíamos. Alguns de nós mal conseguia se manter de pé. Lançados ao chão, desfrutávamos da doçura e paz que aquele lugar nos trazia.
   Tínhamos fome. E por algum motivo nos orgulhávamos disso, e nos alegrávamos nisso. Enquanto o calor nos consumia, nossas armaduras refletiam um brilho cada vez maior. Purificadas pelo fogo, tornavam-se cada vez mais fortes e impenetráveis. Sabíamos quem éramos; éramos aquele momento. Sabíamos com quem estávamos, pela presença que nos preenchia. E sabíamos onde estávamos: No centro de um coração em chamas.

Gesiel Souza

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pare!




  Paramos então por algumas horas. Depois de um dia de corridas, trabalhos e estudos, gritos, sorrisos, choros, poeira, louvores e amores, sentamos à mesma mesa em silêncio. E assim permanecemos por alguns minutos, horas talvez. Ainda assim sentíamos e sabíamos que aquela era a melhor conversa que jamais tivemos.
  Com os olhos e pensamentos voltados à mesma direção, uns com discretos sorrisos, tantos outros com lágrimas nos olhos, cantávamos ali a mesma canção. Sem palavras. Sem instrumentos. Sem sequer batuques leves com os dedos ou qualquer tipo de som. Ainda assim a melodia ecoava e contagiava a todos.
   Parecia utópico, mas sabíamos que não era. Não poderia ser, pelo menos não para a grande maioria. Paz e Liberdade estavam lá, eram notáveis, quase palpáveis. As expressões em cada rosto eram provas vivas e sinceras disso.
  Se um ou outro rompia o silêncio todos os demais ouviam com atenção, sabendo que o que quer que fosse dito ali não poderia ser irrelevante. Estávamos em total concordância. Havia uma sincronia quase perfeita de pedidos e desejos.
   Sabíamos, claro, que ao sair dali voltaríamos à mesma rotina, seja ela qual fosse, mas ninguém ousava pensar nisso. Simplesmente ficamos ali, naquele momento. Até mesmo muitos que não estavam pareciam estar. Crianças dormiam, pois até elas sabiam que não haveria no mundo inteiro lugar mais seguro que aquele.
   Pode ser que, dos fatos, tudo tenha durado algumas horas, ou pode até ser que ainda dure até hoje. Contudo, pelo sim ou pelo não, cada coração que lá esteve permanece exatamente no mesmo lugar.

Gesiel Souza